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O novo trabalho da El Toro Fuerte transforma memórias em narrativas de coragem e carinho

Foto: Raquel Domingues

Carinho, memória e coragem dão o tom do segundo disco dos mineiros da El Toro Fuerte, Nossos Amigos e os Lugares que Visitamos. O sucessor de Um Tempo Lindo Pra Estar Vivo já dá uma ideia do que se pode sentir a cada audição só pelo nome. A banda formada por Diego Soares (vocal, baixo e guitarra), Gabriel Martins (bateria), João Carvalho (vocal, baixo e guitarra) e, mais recentemente, Fábio de Carvalho (vocal e guitarra) construiu uma narrativa honesta e sensível, feita com o suporte de uma grande rede de amigos.

Existe um toque de otimismo que permeia o som da “El Toro” e é combustível para manter as engrenagens do grupo funcionando. Afeto é ato de bravura e está presente em todas as camadas de NALV, como também é chamado. Nas letras ou melodias mais redondas, mas principalmente nos detalhes e sutilezas que nos movem, levantam e renovam as esperanças.

É delicioso poder se relacionar com as palavras e sons desenhados no trabalho. Passam por inquietações muito próprias do momento em que vivemos como jovens, como parte do mundo – sem deixar a ternura de lado.

Bati um papo com os meninos sobre essas e outras viagens e você pode conferir aqui embaixo.



Vocês estão trabalhando no disco novo desde 2017, certo? O que foi indispensável na hora de construir essa nova narrativa?

Fábio: Tempo!

João: Acho que as questões indispensáveis foram, primeiramente, construir um espaço mais aberto pra gente conceber o disco. Eu tenho uma mania meio egoísta de chegar com as composições quase completamente prontas e, dessa vez, apesar disso, a gente conseguiu passar alguns dias no sítio da Raquel Domingues (produtora da banda) meio que brincando com o material que a gente tinha, se apropriando dele, colocando as coisas na roda, em jogo. Foi um processo mais coletivo do que no primeiro disco. Também foi indispensável uma certa sensação de evolução. Eu me senti mais satisfeito com os arranjos e com as composições, do tipo “ok, acho que vamos entregar um trabalho que siga em frente, que seja uma atualização, que seja em alguma medida mais condizente com as pessoas que somos hoje do que com as que éramos quando saiu o primeiro disco”.

Diego: Acho que o principal foi parar de correr contra o tempo e deixa o nome, que foi escolhido em dezembro de 2016, tomar corpo e virar um conceito de verdade. Arriscamos muito em termos de autogestão e produção, e esse tempo foi crucial pra gente estabelecer o que queria e o que conseguia fazer. Tínhamos em 2016, quando saiu o Um Tempo Lindo Pra Estar Vivo, a ideia de lançar um disco por ano, mas com a estrada e outras obrigações, se tivesses apressado as coisas, acabaríamos entregando um resultado insatisfatório.

Gabriel: Boa parte do NALV dialoga com os bons momentos nos shows e viagens que fizemos até aqui, além de todos os amigos que a gente encontrou pelo caminho. Pra gente, isso foi fundamental para a construção da narrativa, e eu, particularmente, fico muito feliz de termos conseguimos emular todo esse sentimento ao longo do disco.

E para a criação de um trabalho novo, o que sentem que mudou na produção? De qualidade técnica a amadurecimento pessoal e como grupo.

Fábio: Acho que amadurecemos, mas não acho que foi só isso que deixou o disco melhor. Alguns dos momentos que eu mais gosto do disco são os afetados por certa inocência. Quanto mais uma banda jovem nós parecemos, acho que melhor operamos.

João: A primeira questão pra mim é o tempo que dedicamos ao processo todo. O primeiro disco foi gravado em, mais ou menos, uma semana. Foi uma explosão mesmo, um acontecimento. O NALV foi um processo planejado, discutido, deliberado em vários sentidos. Tecnicamente e pessoalmente, é um disco que nos retrata incrivelmente mais maduros. Gravamos todos os instrumentos com mais qualidade, fizemos um processo de mixagem e masterização que passou por mais mãos, investimos com mais intensidade na pós-produção. É um disco que, me parece, soa mais sério, mais centrado. Acho que pela primeira vez, estivemos todos inteiramente implicados na feitura do disco. Foi uma aventura! hahaha

Diego: Acho que o clima de “DIY”, banda autoral, “uhul”, acabou um pouco. Estabelecemos metas reais e objetivos de curto e longo prazo. Nos comportamos mais como uma equipe hoje e nos cobramos mais também. Queríamos nos afastar completamente de um rótulo lo-fi e entregar um disco que fizesse jus às nossas ambições de composição. Tivemos que aprender muito, comprar coisas novas (como equipamentos) e penar bastante pra isso. De gravar vozes, microfonar amplificadores, gravar um piano de cauda e gravar uma bateria, fizemos tudo por conta própria, com os conhecimentos do João e nossos pitacos. Então é uma jornada monstruosa ter começado e ver a recepção agora.

Gabriel: Desde o primeiro disco, que foi feito às pressas e com pouca experiência, já sabíamos que poderíamos fazer o segundo muito melhor, e esta foi nossa meta. Dessa vez, nós conseguimos mexer nas músicas com mais calma e, sem aquela pressão para o lançamento, o resultado foi melhor do que esperávamos. Na gravação da bateria do 1TLEV, eu gastei dois dias, já nas gravações do NALV eu levei cerca de 6 meses, e isso me ajudou a construir umas linhas de bateria mais bem pensadas e as gravações foram feitas com mais segurança também.

Vocês já mencionaram que “Aquários”, do disco novo, seria uma continuação de “João e o Mar”. Me conta um pouquinho mais: pensam nisso, de alguma forma, como um marco dessas mudanças? O que sentem que o álbum novo traz do anterior?

Fábio: Sim, traz a perspectiva otimista sobre o cotidiano, sobre os afetos e encontros.

João: Olha, eu sinceramente não gosto muito de pensar nesses termos de continuação, sabe? Acho que justamente por estarmos falando tanto sobre emoções e afeto, essas coisas tão complexas e imprevisíveis, não tem porque ficar direcionando a audição das músicas. Se as pessoas encontrarem relações entre elas, sejam quais forem, provavelmente existe uma verdade nisso. Mas é uma verdade pessoal e intransferível: cada pessoa tem a sua… hahaha. Mas é inevitável, as duas compartilham um certo gostinho de mar, de fundo d’água. Muitas das minhas músicas têm isso. Eu acho que o NALV ainda tem uma aura assim, como se fosse um restinho do cheiro do primeiro disco, em todas as músicas quase. E acho que é isso que é a identidade, né? Alguma coisa que ninguém consegue capturar exatamente, mas que é uma estabilidade, algum grãozinho que se mantém reconhecível com a passagem do tempo, apesar da mudança de todas as coisas.

Diego: Essa é uma análise de Twitter que eu fiz sem nem consultar o João sobre isso… hahahaha. Eu faço essas teorias e amarrações nas redes sociais, com tudo fazendo muito sentido na minha interpretação pessoal e que a banda até acha bacana. Apesar de não ser uma resposta gabaritada, eu falo com muito critério após fazer um estudo geral e acompanhar a evolução do pessoal de perto, né? Então, onde tem seriedade tem brincadeira e vice-versa nessas cravadas. Acho que trouxemos as quebras instrumentais, as letras carregadas e a vontade de continuar criando de forma livre. Hoje, queremos ser uma banda maior, que alcança mais gente, mas só faz sentido se pudermos continuar nessa ambição de criar sem barreira.

O som trata de algumas aflições que estão muito sintonizadas com o momento que a galera da nossa idade vem passando. Apesar disso, sinto que o otimismo que marca Um Tempo Lindo pra Estar Vivo ainda está presente em Nossos Amigos e os Lugares que Visitamos em algum tom. Como sentem isso?

Fábio: O único jeito é olhar pra frente. Vai fazer o quê? Não quero ficar dando adeus às coisas passando, eu quero é passar com elas. Pelo menos tentar, né.

João: Acho que o mundo sem dúvida ficou MUITO mais fodido desde o Um Tempo Lindo Pra Estar Vivo, né? Parece até um jogo de provocação com a realidade, às vezes. Como se a vida tivesse constantemente desafiando a possibilidade de existir qualquer forma de pensamento positivo. E eu vi as pessoas à beira do precipício. Eu passei por uns meses aí pra trás em que não parecia fazer sentido continuar qualquer coisa. Estamos vivendo um punhado de anos muito, muito difíceis. E eu diria até que o otimismo ficou mais intenso no NALV. Virou, de certa forma, uma questão de sobrevivência. Como fala aquele disco do Idles, “Alegria como um ato de resistência”. Acho que quase toda resistência política hoje passa um pouco por isso, desde a comunidade LGBT até a questão dos povos tradicionais. A gente foi ensinado a sentir culpa de ser feliz. Temos terror de felicidade. Eu fiz minhas músicas tensas como sempre, mas pela primeira vez eu tive coragem de jogar na roda algumas canções mais solares, pra dançar, aliviar e me parece ter sido meio assim com os meninos também. Pra mim, virou uma questão de sobrevivência: a música triste dá um certo grau de combustível pra revolta, pro caos, e o caos é um passo necessário pra que as coisas mudem. Mas, hoje em dia, a gente já está no meio do caos. Acho que já anunciamos todos os tipos de fim do mundo possíveis, já imploramos por reações, revoltas, reconstruções. A minha única esperança hoje é pensar que o processo é lento e gradual mesmo e que, talvez, o que a gente possa fazer de mais valioso agora seja tomar conta de nós mesmos… Amizade e Amor, curar as feridas, se manter minimamente saudável. E, pra isso, precisa de otimismo também.

Diego: O tempo é um professor incrível, né? Acho que o otimismo vem do distanciamento e de como a gente enxerga o passado de forma nostálgica e sem o véu da pressão. Mesmo em situações um pouco traumáticas que são relatadas. Eu tenho visto o NALV de forma mais otimista ainda, como voltar pra casa depois de uma viagem longa e contar boas histórias. Mas lembrando uma coisa que pensei outro dia: é um pouco como se fossem as mesmas histórias do 1TLEV só que contadas com uma porção maior de maturidade. Como seria se você perguntasse pra uma pessoa que saiu da escola há dez anos o que era o ensino médio e depois perguntar pra alguém no fim do terceiro ano, prestes a fazer o Enem, como foram os últimos três anos.

Qual o papel dos amigos na hora de manter o otimismo vivo? Qual a importância dessa rede de afetos pra banda?

Fábio: Acho que eles tiram o peso de uma existência sozinha. Não grilar tanto com as coisas que te afligem, se importar com os outros, celebrar suas vitórias e chorar suas derrotas.

João: Essencial! Todo o conceito do disco gira realmente em torno disso. É o que permite a banda funcionar, rodar as cidades do país, é o gás que dá uma reanimada na gente depois de ficarmos encavernados num estúdio por tanto tempo. E a ideia é que a rede continue crescendo. Somos seis cabeças muito diferentes conhecendo e trazendo gente pra construir esse espaço que é a banda.

Diego: Os amigos são o próprio motor, né? Trazer gente nova, manter gente perto, o afastamento natural de uma ou outra pessoa, como vão reagir com as músicas novas… É basicamente o que passa pela cabeça, né? Viajar e tocar junto deles é a consagração. A cada etapa, gente nova, gente velha, e assim vai. Ter gente pra surpreender é o motor da vida. Amigos e gente ouvindo e gostando é o extremo entre tocar no quarto e tocar num show cheio de gente. Os amigos botam a pilha pro treino virar jogo! hahahaha

Gabriel: Por causa deles, chegamos até aqui, então eu poderia dizer que é fundamental o apoio e afeto que a banda recebe, isso nos mantém vivos e com mais vontade de fazer coisas novas. Fazer músicas para pessoas que realmente curtem o nosso trabalho é muito prazeroso, ficamos sempre muito satisfeitos com as reações das pessoas que escutam nossa música, são sempre muito calorosas e afetuosas também e isso nos impulsiona.


Foto: Raquel Domingues

Depois desse tempo em atividade, qual a relação da El Toro com a comunidade que tá no entorno? Tenho a impressão de que muito do que foi construído desde 2015 tem a ver com o apoio entre as pessoas, até pelo que o próprio disco mostra.

Fábio: As pessoas que apoiam a gente de qualquer maneira são a única coisa que mantém a banda operando.

João: As redes sobre as quais falamos ali em cima com certeza se tornaram maiores e mais intricadas. Esse disco envolveu toda uma equipe e as dificuldades e os atrasos acabaram criando uma ansiedade coletiva que aproximou todo mundo também. Quando o disco saiu, eu sentia que tinha muita gente feliz por termos conseguido, gente de lugares muito diversos, gente pela qual eu tenho muito carinho, mas nunca consegui manter tão próxima quanto eu queria, por distâncias espaciais, dificuldades psicológicas, etc. E é muito emocionante e revigorante saber que essas redes são capazes de sobreviver, em alguma medida, a esse tanto de tempo e de tempestade. Diego é uma das pessoas mais responsáveis por conseguir manter esses laços, eu acho. E é isso, a gente vai se salvando uns aos outros, membros, público e amigos, de bocado em bocado. Às vezes eu sou o irmão meio retraído e quieto, mas o carinho tá lá, de verdade mesmo!

Diego: Eu sempre acreditei nas redes pessoais como o grande pulo do gato para as bandas. E via relatos até de muita gente no mainstream sobre o começo e as relações. Esse segundo disco, que eu considero muito melhor que o primeiro, só existe porque o primeiro recebeu apoio e incentivo das pessoas pra seguir em frente e chegar a mais pessoas. E isso nos deu oportunidades e abriu portas diversas. E isso transformou nossos shows em comunhão e fez com que a gente quisesse melhorar e ser mais. A relação com a comunidade que nos acompanha é simbiótica, indissociável, com certeza.

Gabriel: Aos poucos, a Toro foi conquistando o coração das pessoas, fomos ganhando mais espaço na mídia independente, o que está fazendo com que mais pessoas nos encontrem e também buscamos acolher cada pessoa que se interesse pelo nosso som, chamando pra ser de fato um dos nossos e acho que a partir daí as pessoas foram criando mais empatia com a gente. Temos uma relação maravilhosa com todos que nos apoiam, e é foda demais!


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